Jorge Bandeira
Final de tarde no Largo São Sebastião, outrora Praça de São Sebastião. Estamos defronte ao imponente Teatro Amazonas, onde burburinhos são muitos, até que os sauins teatrais da Cia Vitória Régia atravessam, e a trupe inicia sua narrativa musical, que infelizmente durante todo o espetáculo foi o ponto destoante do que poderia ter sido uma cosmogonia amazônica linear e dentro de padrões técnicos regulares para a compreensão dos espectadores, especialmente às crianças, visto que muitas delas acompanharam apenas a ludicidade da encenação, mas não adentraram nos meandros do musical, onde cada personagem tinha seu tema, mas que foi inaudível para maioria do público presente.
Estava o crítico na quinta fileira e perdi muito da narrativa e das canções, inclusive alerto que as próximas apresentações devam ser feitas com microfones sem fio individuais e iluminação adequada ao ambiente, caso contrário a potência desta obra da experiente Cia Vitória Régia será sempre aquém dos resultados estéticos esperados, especialmente para quem conhece de longos anos o zelo e cuidado do diretor Nonato Tavares com as suas incursões nos mais diversos meandros da arte do Teatro.
O som foi o grande vilão de O Casamento da Filha do Mapinguari, onde todas as vozes foram abafadas pelas máscaras e os instrumentos musicais em alguns momentos fizeram simplesmente desaparecer as vozes dos atores e atrizes, em especial nos momentos onde a música tornava-se a protagonista, o que resultou em dispersão de boa parte do público para o que estava acontecendo nos arcos frontais do Teatro Amazonas. Vamos então aos fatos. A Filha do gigante Mapinguari, Lua Nova, está em sua cápsula escura, à espera de seu pretendente, preocupada com o casamento, cheia de dúvidas quanto a intenção de seus pretendentes, e sua escolha é supervisionada pelo gigante Mapinguari, ser fantástico e misterioso, habitante e protetor da floresta, um ciclope tropical e ancestral, eis o mote da peça, casar a filha.

O primeiro pretendente é o tucano, e a voz chorosa da filha do Mapinguari coloca logo para escanteio o bicudo, que veio todo faceiro com seu tema musical. Aliás a estrutura narrativa é calcada na técnica das narrativas tradicionais e lineares da literatura oral feita no Brasil, misto de cordel com repentes, onde a narrativa flui e a sequência segue, porém nesta apresentação, pelos motivos técnicos já discutidos aqui, um eclipse narrativo se impôs, numa alegoria da própria tenda negra de Lua Nova, sabedores do casamento da filha do gigante, os espectadores, nós, sem surpresas, a vimos receber núpcias.
O segundo pretendente foi o bicho folharal, camuflado e que pela frutífera imaginação de alguém da plateia recebeu a alcunha de Mostro do Pântano, personagem emblemático das narrativas gráficas das histórias em quadrinhos. Notei também que a macacada dos sauins ficou dispersa em alguns momentos da apresentação, talvez pela ausência de marcas, o que na vertente do Teatro de rua seja um outro motivo para a dispersão de espectadores da história narrada. O bicho folharal é rejeitado e entra agora, também com seu tema musical tamanduá, e aqui chamo a atenção para o barroquismo dos figurinos da montagem, todos bem executados, e nosso linguarudo tamanduá faz seu pagode, porém é igualmente rejeitado por Lua Nova.
As interações com a plateia foram os momentos vigorosos do espetáculo, as crianças adoraram participar deste casório, e aqui mensagens de alerta da Cia Vitória Régia, sempre antenada com as atualidades amazônicas e planetárias, faz-se presente, alertas climáticos, fogo, fumaça, desmatamento, estiagens, ataques à fauna e flora, eis o combate da Cia Vitória Régia ao longo de pelo menos quatro décadas de apresentações cênicas.
O pretendente final é a surpresa da trama, trata-se de Jaraguá, ser medonho e cadavérico, e com todos estes atributos negativos, ele que ganha o coração de Lua Nova, Jaraguá Ismael beija sem a horrenda máscara Lua Nova Stephanie, o público aplaude e o tão esperado buquê de flores é jogado, e a narrativa é encerrada após 43 minutos de apresentação.
Destaco como um todo o elenco, que mesmo com as limitações impostas pelos sons externos que ecoaram durante toda a apresentação, com ruídos diversos ao longo do Largo, e sem o aparato essencial de microfones individuais e sem fio, soube conduzir a história, que poderia ter sido bem melhor, mas infelizmente perdemos a riqueza do texto em seus momentos de maior conflito e impacto narrativo. O texto, adaptado pelo diretor ou pelo coletivo de intérpretes, foi o maior prejudicado na encenação, que se manteve especialmente pelo visagismo dos figurinos e máscaras da trupe teatral, e a pesquisa sonora, bem executada, não conseguiu o equilíbrio entre som dos instrumentos e vozes dos intérpretes, apesar das melodias e cadências sonoras que serviam de fio condutor em cada passagem de personagem. A Cia Vitória Régia, de qualquer forma, segue firme ao longo das décadas, levando o Teatro e a Natureza amazônica para novas gerações.

*Jorge Bandeira é crítico de Teatro e professor do curso de Teatro da UEA.
Manaus, 22 de outubro de 2024
FICHA TÉCNICA
O Casamento da Filha do Mapinguari
Cia Vitória Régia
DIREÇÃO: NONATO TAVARES
DIREÇÃO DE MUSICAL E PREPARAÇÃO VOCAL: ELSON JHONSON
ELENCO: ANA CAROL SOUZA, GABRIEL RAID, STHEFANNY AZEVEDO, CHICO KABOKO, ISMAEL FARIAS, NONATO TAVARES, LUIZ BRILHANTE, JOE MAIA.
PERCURSSÃO: ELIBERTO BARRONCAS
ARRANJOS: ELSON ARCOS E JOÃO FELIPE
CENOGRAFIA: NONATO TAVARES
FIGURINO: NONATO TAVARES
ADEREÇOS E MÁSCARAS: ROBERTO SUAREZ E NONATO TAVARES.

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